As interações sociais ajudam a manter a memória ativa
Você se lembra do fatídico mês de março de 2020, quando a OMS (Organização Mundial da Saúde) anunciou oficialmente que a Covid-19 era protagonista de uma pandemia? Um vírus era facilmente transmissível obrigou o mundo todo a tomar medidas profiláticas. Entre elas, o isolamento social. Boa parte da população mundial entrou em confinamento.
Mais de três anos se passaram e o isolamento social não é mais uma realidade. Porém, o acontecimento deixou marcas profundas. Os impactos na mudança do estilo de vida, em virtude do isolamento, foram significativos. Eles geraram diversos problemas na saúde mental das pessoas, provando, definitivamente, que as interações sociais são fundamentais para preservar a vida humana.
Entre os impactos negativos do isolamento/solidão na saúde das pessoas, podemos destacar a memória. Sim, ela foi consideravelmente atingida. Mas a pandemia não é a única vilã. O uso excessivo de telas e a vida em grandes centros, cada vez mais corrida, muitas vezes impede que as pessoas interajam. E, assim, solidão continua agindo contra a saúde da memória – uma importante função cognitiva. A pessoa pode perder aos poucos a capacidade de processamento das informações pela falta de interação com terceiros.
É diante deste cenário que uma pergunta é cada vez mais comum: você tem dificuldades para lembrar de coisas simples ou para processar informações? Acredite, muitas pessoas têm este problema. E tais sintomas podem ser fruto do isolamento social durante a pandemia, mas também da solidão pela qual você pode estar passando. E sabemos que os motivos são diversos, não é? É compreensível. Porém, o que não pode é ser aceitável.
É muito comum que a solidão afete a memória recente, ou memória de trabalho. Essa função é responsável por reter uma quantidade limitada de informações, por um curto período de tempo, a serviço de outras atividades mentais em andamento.
Essa falha pode prejudicar pessoas de diversas idades e profissionais de diferentes áreas, que sofrem com a falta de pertencimento. É um ciclo vicioso: a falta de memória pode fazer a pessoa se isolar e, quanto mais ela se isola, mais a memória é prejudicada. É preciso pedir ajuda.
A neurociência explica que, além da memória, a solidão pode causar certas mudanças nas habilidades de pensamento, reduzindo a estimulação das atividades mentais. Estas são importantes porque vêm da interação social e afetiva. Também, pela prática de exercícios físicos e atividades prazerosas. Estar com outras pessoas ajuda o cérebro a processar diversas informações ao mesmo tempo, o que estimula a capacidade cognitiva.
Cientificamente falando, a falta de estímulos e interação social pode causar mudanças neuroquímicas, como o encolhimento do cérebro e algumas alterações comuns ao Mal de Alzheimer. Outro efeito causado pela solidão é a redução do fator neurotrófico derivado do cérebro (BNDF) – principal responsável pela neuroplasticidade neuronal. Ou seja, o maior aliado da formação, conexão e reparo dos neurônios, bem como da consolidação da memória do hipocampo.
A solidão e a falta de interação provocam uma piora na função cognitiva. Há uma relação com a redução da memória episódica. E, embora a pandemia tenha contribuído muito com uma piora neste sentido, a solidão tem gerado vítimas bem antes disso. Segundo especialistas, o problema está atrelado também ao advento da tecnologia, cujas ferramentas têm mantido pessoas cada vez mais isoladas.
A falta de tempo entra nessa lista. As pessoas, hoje em dia, não têm mais tempo para interagir socialmente, o que causa uma solidão involuntária. Isso, sem falar na insegurança que muitos têm de sair de casa (por isso, a importância de pedir ajuda e procurar um especialista). Como neuropsicóloga, oriento que é fundamental que as pessoas se reúnam apenas com o objetivo de interagir, sem assuntos tão importantes para tratar. Estar consigo mesmo é muito bom. A própria companhia é ótima. Mas precisamos também da companhia de outras pessoas. Essa interação pode trazer estímulos, encorajamento e melhorar a capacidade cognitiva, em especial, a memória.
Já marcou uma reunião com os amigos para esta semana?